Quem teve o privilégio de viver a infância no fim da década de 90, longe das grandes cidades, num tempo silencioso, de pouca luz e pouca tela, pôde testemunhar um fenômeno da natureza que, para nós, parecia mágico... Mais pertencente ao mundo das fadas do que ao mundo real.
Existiam os vagalumes.


Eu e meu irmão tivemos essa sorte.
Passávamos as férias, e grande parte da vida, na fazenda, em um Brasil que ainda não conhecia a internet do jeito que conhece hoje.
E talvez, justamente por isso, nos sobrava imaginação.


Uma das nossas brincadeiras favoritas era o que chamávamos de caçar vagalumes.
Nas noites quentes e úmidas do verão, quando aqueles pontinhos verdes apareciam para dançar em sincronia, nós corríamos pela mata munidos de um pote de vidro com tampa furada e uma vontade quase inocente de capturar a magia... Como quem tenta, por um instante, pertencer a um universo encantado.


Naquela época ninguém, nem mesmo nós, percebíamos que os vagalumes estavam desaparecendo.
Estávamos ocupados demais brincando, nadando, empinando pipa e nos sujando.


Os adultos, por sua vez, estavam ocupados demais sobrevivendo a um país que acabara de derrubar um presidente, sair da hiperinflação, estabilizar uma moeda e receber, com espanto, os primeiros celulares, computadores, e a internet discada.


Éramos um Brasil meio analógico, meio moderno e completamente intenso.


Só hoje percebo que, no tempo em que os vagalumes ainda brilhavam, nós brilhávamos também.
Éramos mais autênticos porque precisávamos ser.
Sem excesso de informação sobre o outro, criávamos a partir de nós: de reflexões internas, de experiências vividas.
Havia tempo e espaço para o tédio, o maior aliado da criação.


Três décadas se passaram, e os campos e florestas que antes eram escuros hoje estão artificialmente iluminados.
A claridade é tanta que os vagalumes se cegaram.
Esses pequenos seres mágicos, que dependem da escuridão, pois usam da sua própria fonte de luz pra se encontrar e se comunicar, não conseguem mais se achar, nem para conviver, nem para procriar.


E parece que nós, também não.


A vida sem os vagalumes é diferente.

Com o excesso de iluminação veio o excesso de informação.

E com o excesso de informação, o excesso de comparação.


Vivemos ansiosos nesse mundo moderno, pós-pandêmico, recém-chegado à era da inteligência artificial.
Criamos a partir do outro porque, de alguma forma, nos afastamos de nós mesmos.
Há um vazio:

O vazio que a pandemia deixou. 
O vazio de quem passa horas do seu dia vivendo, através de telas, outras vidas. 
O vazio que a inteligência artificial tenta preencher ocupando nossos espaços de pensar e de criar. 

 

Há ainda o vazio de ser a última geração a ter habitado um mundo com vagalumes, sabendo que são agora, uma lembrança muito dolorosa do passado, e quem tem tal lembrança, sabe que será impossível se reconhecer nos novos jovens, que nunca viram um vagalume sequer.

 

No que diz respeito a mim, Luiza, que carrego luz no nome e terra nas mãos, eu te digo com toda verdade:
eu daria tudo por um único vagalume.